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Delicada como um elefante

28
Jun18

“Antes de eu partir” - Paul Kalanith

Bárbara

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Já acabei de ler o livro há uns dias. Já mudei o número de estrelas duas vezes. Estou com alguma dificuldade em ter a certeza do que penso sobre ele. Talvez não o devesse ter lido a seguir ao “Ler mortal” porque o assunto é o mesmo só que em vez de ser a visão do médico e filho do doente oncológico e paliativo, é a visão do médico que é o próprio doente.

O livro está incompleto porque o autor morreu antes de o acabar e foi a mulher que escreveu o epílogo.

A coisa que gostava mais de realçar sobre o autor é que ele também era formado em literatura e tem uma cultura muito rica pelo que escreve muito bem.

Depois é obviamente uma história triste porque é um homem jovem que morre de cancro e em relativo pouco tempo. Deixou mulher e um bebé. Essa foi a parte que me fez confusão porque isso foi uma opção já depois de saber que ia morrer. Eles estavam quase a divorciar-se e e depois de descobrirem a doença ficam juntos e ainda por cima decidem ter um bebé. Mas quem sou eu para julgar?

Ele era interno de neurocirurgia e por isso não tem assim tanta experiência como faz crer sobre morte por cancro. O Atul Gawande é mais velho e cirurgião geral, pelo que se nota outra maturidade. 

Estava à espera de uma reflexão mais profunda sobre o que é ser um homem no auge da vida e ter de enfrentar a proximidade com a sua morte. Acaba por ser só uma descrição dos acontecimentos e a única reflexão que ele faz é de que não sabe o que decidir o que fazer da vida porque não sabe quanto tempo de vida tem. 

É um 3,5*.

13
Jun18

“Ser mortal” de Atul Gawande

Bárbara

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Este livro é absolutamente obrigatório para médicos que lidam com idosos e doentes terminais. 
É provavelmente o melhor livro que já li. O tema é algo que me é muito caro porque desde os tempos da faculdade que interiorizei  a parte do Juramento de Hipocrates que diz que não devemos fazer mal. Infelizmente, ainda há muitos médicos que, como diz o autor, “Vezes sem conta, nós, profissionais de saúde, infligimos feridas profundas no fim da vida das pessoas e depois ficamos a ver, sem termos consciência do mal que fizemos.”
O livro está muito bem escrito, bem estruturado e muito bem documentado.
 
 
Sinopse:
“Como é que enfrentamos o envelhecimento das pessoas que amamos? Apesar de trabalhar há anos como cirurgião, Atul Gawande só se apercebeu até que ponto estava mal preparado para lidar com a morte quando foi confrontado com a decadência do pai. Estaria o pai disposto a viver até onde fosse medicamente possível? Ou só enquanto tivesse qualidade de vida? E em casa ou num lar? O que era realmente importante? As respostas, não lhe eram dadas por uma ciência cada vez mais desumanizada. A medicina, com todos os extraordinários progressos tecnológicos, tem vindo a centrar-se cada vez mais em (apenas) manter os pacientes vivos. O coração falha? Há cirurgias, próteses e transplantes. O resto pouco importa. Na pior das hipóteses o paciente volta ao bloco operatório para nova intervenção. Esquecida fica assim a vida nos intervalos das consultas e cirurgias. No entanto, conforme defende Gawande, devemos encarar a medicina como uma forma de prolongar a qualidade de vida. Existem geriatras, lares, hospitais, unidades de cuidados paliativos que oferecem aos pacientes dignidade, auto-estima, autonomia. Provam que o fim pode ser (re)escrito de outra maneira - muito mais feliz. Leitura obrigatória para quem envelhece ou testemunha a velhice, Ser Mortal é o melhor e mais pessoal livro de Atul Gawande. Filosófico por vezes, comovente quase sempre, é a corajosa narrativa de um médico que conhece os limites da ciência, mas também o modo como ela nos pode servir melhor.”
 
 
 
05
Jun18

Reflexões médicas - eutanásia, distanásia e cuidados paliativos

Bárbara

Fui ao meu dicionário médico e aqui vão as definições:

Eutanásia - uso de procedimentos que permitem proporcionar, sem sofrimento, a morte a um ser humano que a deseja - ou que se supõe desejá-la - tão doloroso é o seu estado.

 

Distanásia - (não tem) Morte lenta e dolorosa. (Priberam)

 

Paliar - atenuar sem curar

 

Antes de mais, uma pequena contextualização. Sou médica há 10 anos, nomeadamente cirurgiã geral. Lido com cancro todos os dias e, por isso, com doentes terminais. Também lido com doenças benignas letais. Essas serão muito mais difíceis de explicar aos leigos e por isso acho que são ainda mais dramáticas.

 

Quando comecei o internato de cirurgia geral conheci o serviço onde o meu avô morreu com um cancro do estômago. Na altura em que isso aconteceu eu tinha 16 anos e perdi a minha pessoa preferida e, provavelmente, a melhor pessoa que poderia ter conhecido. Foram 2 meses... Ele nunca soube o diagnóstico. Os filhos não quiseram, nem os médicos acharam que valesse a pena. Discordo! O meu avô tinha 80 anos mas trabalhava todos os dias de manhã à noite. Estava lúcido e era perfeitamente autónomo. Nos últimos dias de vida, foram os únicos diferentes. Ele não me deixou entrar no quarto dele. Como não sabia o que tinha, teve medo de me contagiar. Se acham que é violência dizer a alguém que tem um cancro, que já não há cura possível, experimentem que essa pessoa não saiba porque está a morrer e se afaste das pessoas mais próximas. Não estou a dizer que alguém tenha feito isso por mal. Foi tudo tão rápido que nem deu tempo para se fazer melhores escolhas. No dia em que morreu, caiu na casa de banho e foi levado para o hospital. A nossa médica de família criticou os filhos porque ele devia morrer em casa. Concordo, mas acho que ninguém tinha percebido que aquele dia era o último. Morreu sem sofrimento, sedado pela doença e pela medicação. Toda a gente devia morrer assim, não no hospital, mas sem sofrimento.

No primeiro mês de trabalho vi uma senhora de meia idade morrer da mesma forma. Interrompi aquele último momento para ver se a senhora tinha dores. Ainda hoje não sei se fiz bem ou mal. Fiquei com muitas dúvidas se esta especialidade era para mim porque a verdade é que há muita morte. Sei que ambas as situações marcaram toda a minha prática clínica.

 

Todos os médicos são talhados para a cura, mas os cirurgiões estão noutro nível. Estão habituados a meter a mão dentro do doente e isso ter uma de três consequências: o doente fica melhor e, de preferência, curado; abre-se e fecha-se, ou seja, não há nada a fazer; faz-se algum procedimento inútil ou agrava-se a situação do doente, mesmo que isso não seja nossa intenção. O peso da responsabilidade é diferente, não é o mesmo que dar um medicamento... Portanto, as nossas decisões, de vida e morte, pesam-nos. Dizem que os cirurgiões são insensíveis. Da minha experiência não, até são bem mais sensíveis que os outros médicos e quase todos os doentes que correm mal vão connosco para casa. E vai sempre aquela dúvida do será que podia ter feito diferente? A ciência pode ajudar nestas decisões, mas há um cunho pessoal muito grande. Nós somos humanos. Acho que por isso nem sei o que pense da eutanásia. Fui muito treinada para curar, um pouco para tratar e muito pouco para desistir.
 

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Sei que me revolta a distanásia. Já vi muitos procedimentos inúteis que aumentam o sofrimento nos últimos momentos de vida. Se já sabemos que não há retorno, para quê picar a fazer mais umas análises, pôr mais uma algália ou uma sonda nasogástrica? Claro que ninguém faz isto por mal. Faz-se por não se saber lidar com a morte. Os médicos não aprendem a lidar com isto, veêm-se como uma falha perante esta situação.
Todos temos de saber prestar cuidados paliativos. Nos dias de hoje, ninguém precisa de morrer com dor. No entanto, as equipas e serviços especializados existem para alguma coisa, mas são manifestamente insuficientes e isto gera distanásia. Se um doente terminal em vez de ir para um serviço especializado, ser tratado por uma equipa especializada, cai nas mãos de um médico que o quer salvar, estão à espera de quê? Se as famílias não têm apoio em casa, estão à espera que não levem o o doente para a urgência? Aumentem as unidades de cuidados paliativos, formem gente, e talvez nem precisassemos de estar a falar de eutanásia. Mais, se os doentes nem compreendem o que têm, tanto porque não se lhes diz como nem eles querem saber, como podem tomar uma decisão consciente. Ou faz-se uma lei só para as elites?
 
Há outras situações que me geram dúvidas, os doentes neurológicos. Aliás, penso muitas vezes se essas pessoas não terão o direito de não quererem chegar à fase terminal da sua doença e morrerem como os seus entes queridos as conheciam. Mas como isso não é a minha área, não sei se o sofrimento dessas pessoas é ultrapassável ou se a eutanásia se justifica.

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