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Delicada como um elefante

05
Jun18

Reflexões médicas - eutanásia, distanásia e cuidados paliativos

Bárbara

Fui ao meu dicionário médico e aqui vão as definições:

Eutanásia - uso de procedimentos que permitem proporcionar, sem sofrimento, a morte a um ser humano que a deseja - ou que se supõe desejá-la - tão doloroso é o seu estado.

 

Distanásia - (não tem) Morte lenta e dolorosa. (Priberam)

 

Paliar - atenuar sem curar

 

Antes de mais, uma pequena contextualização. Sou médica há 10 anos, nomeadamente cirurgiã geral. Lido com cancro todos os dias e, por isso, com doentes terminais. Também lido com doenças benignas letais. Essas serão muito mais difíceis de explicar aos leigos e por isso acho que são ainda mais dramáticas.

 

Quando comecei o internato de cirurgia geral conheci o serviço onde o meu avô morreu com um cancro do estômago. Na altura em que isso aconteceu eu tinha 16 anos e perdi a minha pessoa preferida e, provavelmente, a melhor pessoa que poderia ter conhecido. Foram 2 meses... Ele nunca soube o diagnóstico. Os filhos não quiseram, nem os médicos acharam que valesse a pena. Discordo! O meu avô tinha 80 anos mas trabalhava todos os dias de manhã à noite. Estava lúcido e era perfeitamente autónomo. Nos últimos dias de vida, foram os únicos diferentes. Ele não me deixou entrar no quarto dele. Como não sabia o que tinha, teve medo de me contagiar. Se acham que é violência dizer a alguém que tem um cancro, que já não há cura possível, experimentem que essa pessoa não saiba porque está a morrer e se afaste das pessoas mais próximas. Não estou a dizer que alguém tenha feito isso por mal. Foi tudo tão rápido que nem deu tempo para se fazer melhores escolhas. No dia em que morreu, caiu na casa de banho e foi levado para o hospital. A nossa médica de família criticou os filhos porque ele devia morrer em casa. Concordo, mas acho que ninguém tinha percebido que aquele dia era o último. Morreu sem sofrimento, sedado pela doença e pela medicação. Toda a gente devia morrer assim, não no hospital, mas sem sofrimento.

No primeiro mês de trabalho vi uma senhora de meia idade morrer da mesma forma. Interrompi aquele último momento para ver se a senhora tinha dores. Ainda hoje não sei se fiz bem ou mal. Fiquei com muitas dúvidas se esta especialidade era para mim porque a verdade é que há muita morte. Sei que ambas as situações marcaram toda a minha prática clínica.

 

Todos os médicos são talhados para a cura, mas os cirurgiões estão noutro nível. Estão habituados a meter a mão dentro do doente e isso ter uma de três consequências: o doente fica melhor e, de preferência, curado; abre-se e fecha-se, ou seja, não há nada a fazer; faz-se algum procedimento inútil ou agrava-se a situação do doente, mesmo que isso não seja nossa intenção. O peso da responsabilidade é diferente, não é o mesmo que dar um medicamento... Portanto, as nossas decisões, de vida e morte, pesam-nos. Dizem que os cirurgiões são insensíveis. Da minha experiência não, até são bem mais sensíveis que os outros médicos e quase todos os doentes que correm mal vão connosco para casa. E vai sempre aquela dúvida do será que podia ter feito diferente? A ciência pode ajudar nestas decisões, mas há um cunho pessoal muito grande. Nós somos humanos. Acho que por isso nem sei o que pense da eutanásia. Fui muito treinada para curar, um pouco para tratar e muito pouco para desistir.
 

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Sei que me revolta a distanásia. Já vi muitos procedimentos inúteis que aumentam o sofrimento nos últimos momentos de vida. Se já sabemos que não há retorno, para quê picar a fazer mais umas análises, pôr mais uma algália ou uma sonda nasogástrica? Claro que ninguém faz isto por mal. Faz-se por não se saber lidar com a morte. Os médicos não aprendem a lidar com isto, veêm-se como uma falha perante esta situação.
Todos temos de saber prestar cuidados paliativos. Nos dias de hoje, ninguém precisa de morrer com dor. No entanto, as equipas e serviços especializados existem para alguma coisa, mas são manifestamente insuficientes e isto gera distanásia. Se um doente terminal em vez de ir para um serviço especializado, ser tratado por uma equipa especializada, cai nas mãos de um médico que o quer salvar, estão à espera de quê? Se as famílias não têm apoio em casa, estão à espera que não levem o o doente para a urgência? Aumentem as unidades de cuidados paliativos, formem gente, e talvez nem precisassemos de estar a falar de eutanásia. Mais, se os doentes nem compreendem o que têm, tanto porque não se lhes diz como nem eles querem saber, como podem tomar uma decisão consciente. Ou faz-se uma lei só para as elites?
 
Há outras situações que me geram dúvidas, os doentes neurológicos. Aliás, penso muitas vezes se essas pessoas não terão o direito de não quererem chegar à fase terminal da sua doença e morrerem como os seus entes queridos as conheciam. Mas como isso não é a minha área, não sei se o sofrimento dessas pessoas é ultrapassável ou se a eutanásia se justifica.

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